Gerrit Komrij


 Conferência e visita guiada pela Casa Gerrit Komrij
 conferência em português, por Arie Pos
  Domingo 21 de maio de 2017, 10h30 – 12h30 uur 
   Participação somente mediante reserva confirmada.

Gerrit Komrij viveu com o seu parceiro Charles Hofman na ‘Casa Branca’ em Vila Pouca da Beira. A bela vivenda em estilo italiano tem um desenho primoroso, um jardim amplo e belas vistas sobre a paisagem envolvente.

Programa
- 10h30 recepção na casa de Gerrit Komrij
- 10h45 conferênca sobre vida e obra de Gerrit Komrij - Arie Pos
- 11h00 visita guiada à casa em grupos de, no máximo, 12 pessoas

Custos: € 10 por pessoa

Reservas: pode reservar através do formulário de contacto.
Este evento único tem um máximo de 36 participantes.

Pode encontrar mais informação sobre Gerrit Komrij e as atividades da Fundação Het Komrijk em www.hetkomrijk.nl e facebook 
Gerrit Komrij
Arie Pos
Arie Pos 

Arie Pos (Boskoop, 1958) formou-se em Língua e Literatura Neerlandesa e Literatura Comparada pela Universidade de Leiden e estudou Português e Ciências de Tradução. Trabalhou no Museu da Literatura Neerlandesa, em Haia, e vive desde 1989 em Portugal, onde leccionou Literatura e Cultura Neerlandesas nas Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto. É tradutor literário português-neerlandês v.v. e traduziu obras de, entre outros, Camões, Fernão Mendes Pinto, Miguel Torga, Jorge de Sena en Ana Luísa Amaral para neerlandês e de, entre outros, Jan Huygen van Linschoten, Paul van Ostayen, J. Slauerhoff, Harry Mulisch, Cees Nooteboom, Anne Provoost, Arjen Duinker e Dimitri Verhulst para português. Em 2008, doutorou-se pela Universidade de Leiden. Atualmente, trata do espólio literário de Gerrit Komrij, sobre quem prepara uma biografia.
 alinea
GERRIT KOMRIJ (Winterswijk 1944 - Amsterdam 2012)

A 19 de julho de 2012, Gerrit Komrij foi sepultado no cemitério novo de Vila Pouca da Beira. O autor holandês falecera em Amesterdão, no dia 5 de julho, após um curto período de hospitalização. O ‘senhor doutor’, como era conhecido na aldeia beirã, tinha 68 anos. Foram muitos os portugueses e holandeses que se surpreenderam com o facto de o conhecidíssimo e muito premiado cronista, ensaísta, romancista, antologista, tradutor, libretista, dramaturgo, crítico, pensador, bibliómano e primeiro Poeta da Pátria Holandesa ter preferido para o seu último repouso a aldeia portuguesa onde residia, desde 1988, com o seu parceiro Charles Hofman, ao país natal onde veio ao mundo a 30 de março de 1944. 
A explicação do seu último desejo é simples: Gerrit Komrij era um apaixonado por Portugal e pela pequena comunidade no sopé da Serra de Estrela, onde encontrou um paraíso de paz e sossego, longe de Amesterdão e da azáfama da mediática vida cultural em que participava intensamente nas suas idas à Holanda. A casa em Vila Pouca era o retiro onde podia descansar e trabalhar sossegadamente, como que escondido num esplêndido cenário natural, rodeado de um ambiente pacato e acolhedor.
Um grande painel de azulejos, localizado num largo da rua que da Avenida Principal, no centro da aldeia, sobe para a Pousada do Convento do Desagravo, mostra um mapa identificando os pontos de interesse de Vila Pouca da Beira. Entre eles encontra-se a bela vivenda do ‘doutor Gerrit’ e do ‘senhor Charles’, ostentando a legenda ‘Casa do Escritor Holandês’.
Gerrit Komrij publicou muitas dezenas de livros, escreveu muitas centenas de poemas e contribuiu com milhares de crónicas em jornais e semanários. Para além de ser um grande erudito e estilista, era um crítico e polemista mordaz que, graças a um intelecto e uma curiosidade fenomenais, se lançava a campanhas alegres contra os egos insuflados, as ideias desacertadas, os interesses instalados e as tendências e modas proclamadas da literatura, das artes plásticas, da política, dos média, da televisão, do feminismo, do movimento gay e da vida social e cultural holandesa. Em todas estas áreas mostrou-se um temível espírito independente, sempre original e contra a corrente. ‘Não sou o porta-voz de ninguém’, avisou, numa entrevista, às pessoas que pensavam poder contar com ele para ‘proveito próprio’.
Komrij en Hofman já visitavam Portugal com alguma frequência desde 1978. Da primeira vez, percorreram o norte e o centro do país, de carro, e foi amor à primeira vista. A natureza imponente, a beleza dos monumentos históricos, a vida rural e a simpatia dos portugueses conquistaram-nos. Já partilhavam um fascínio romântico pelo Sul e sentiam-se ‘presos’ na vida cultural amesterdamense, onde encontravam um escritor ou um artista em cada esquina, e numa sociedade onde tudo parecia preestabelecido desde a nascença até à morte. Sonhavam com sol, céus azuis, mais liberdade e o perfume dos limoeiros em flor. Tinham também considerado emigrar para a Grécia, mas, em 1983, decidiram-se pelo Jardim da Europa à beira-mar plantado.
Instalaram-se durante três semanas no Hotel Tivoli, em Lisboa, e visitaram várias casas, quintas, solares e palácios nas redondezas, na companhia de agentes imobiliários. Data deste tempo a hilariante crónica que deu o título ao livro Um Almoço de Negócios em Sintra (ASA, 1999) que, com o contagioso humor e ironia bem típicos do autor, conta uma série de aventuras e peripécias na procura e compra de casa em Portugal. Estavam os dois holandeses à procura de uma casa modesta, e apareceu-lhes um intermediário que assegurava entender perfeitamente o que desejavam e lhes quis vender a Quinta da Regaleira, em Sintra. A seguir, exploraram, a partir do Hotel do Buçaco, a zona de Coimbra, mas também aí não encontraram o que procuravam. Quando, depois, tentaram a sua sorte em Trás-os-Montes, foram seduzidos pelas montanhas agrestes e vales verdejantes. Encontraram um palácio desabitado em Alvites, o Palácio dos Botelhos, obra do arquitecto italiano Nicola Nasoni, onde se instalaram, em Outubro de 1984. O idílio rural em terras portuguesas parecia completo para os holandeses. Aos quarenta anos, tinham encontrado o paraíso e começavam uma nova vida. 
No entanto, a experiência trasmontana acabou numa desilusão. Em cinco anos, passaram do Paraíso para o Inferno, devido a problemas sobre a compra da casa que azedaram as relações. Ficaram a conhecer o lado negro dos brandos costumes e do idílio rural, o reverso das aparências e das fachadas. Como escreveria posteriormente, Gerrit Komrij continuava «um apaixonado por Portugal, mas não um apaixonado cego». Uma vez instalados na Casa Branca, Komrij escreveu em dois meses um romance sobre a aventura em Alvites. Tinha de se livrar dos fantasmas deste passado e dar forma ao que tinha sido um redemoinho de acontecimentos e emoções. O livro saiu, em 1990, na Holanda e foi, em 1997, publicado em português, na ASA, com o título Atrás
dos Montes. É uma obra de ficção no estilo e na construção. Tal como no romance queirosiano A Cidade e as Serras, que de certa forma serviu de modelo e inspiração, a personagem principal é um cosmopolita português da metrópole que se muda para a província. No entanto, a descrição da casa, do meio rural, das personagens e dos acontecimentos são de um realismo confrangedor, apesar da pátina ficcional.
Para Porto/Roterdão 2001 – Cidades Europeias da Cultura, Komrij escreveu o libreto
da ópera Melodias Estranhas, com música do compositor português António Chagas Rosa. A obra sobre a amizade entre Erasmo e Damião de Góis teve duas estreias, em Roterdão e no Porto, contando com papéis cantados em português e outros em holandês.
Em 2005, Komrij teve o gosto de ver publicada em português uma antologia poética, intitulada Contrabando (Assírio & Alvim). Foi a concretização tardia de um desejo desde há muito falado entre o poeta e um seu bom amigo, o editor Hermínio Monteiro, falecido em 2001, e que, em 1997, já tinha editado Uma Migalha na Saia do Universo, uma antologia da poesia neerlandesa do século vinte, organizada por Komrij.
Na altura da sua morte, faziam-se planos para a edição de mais títulos em português, entre os quais um livro de ‘crónicas de aldeia’ chamado Vila Pouca. Seria bom que fossem publicados, pois dariam a conhecer melhor um grande homem, um grande autor e um apaixonado pelo país que escolheu para viver e ser sepultado.
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